Os três irmãos de Betânia, amigos e discípulos de Cristo, constituem como que um retrato das etapas da vida espiritual:
Maria contemplativa, Marta ativa e Lázaro ressuscitado para a vida nova que Cristo deseja nos dar.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 11, 19-27)
Naquele tempo, muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. Então Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá”. Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”. Disse Marta: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”. Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”.
Celebramos hoje a memória de Santa Marta, irmã de Lázaro e de Maria. Ela é conhecida por sua agitação e por ter sido repreendida por Jesus com estas palavras: “Marta, Marta! Tu te inquietas e te agitas por muitas coisas. No entanto, uma só coisa é necessária” (Lc 10, 41-42).
Existe uma conhecida contraposição entre a vida contemplativa de Maria e a vida ativa de Marta. No entanto, os grandes santos, aqueles que chegaram à Sétima Morada, reúnem em si essas duas realidades: são, ao mesmo tempo, Marta e Maria, isto é, profundamente contemplativos e plenamente ativos.
É necessário, porém, compreender que essa união só se alcança seguindo o caminho correto. E o caminho começa com Maria. Precisamos, antes de tudo, sentar-nos aos pés de Jesus, ouvir a sua Palavra e receber a sua graça. Somente então poderemos servir a Deus como Marta o servia, entregando a nossa vida no dia a dia.
Essa primeira etapa, marcada pela vida contemplativa e pela oração, corresponde, no itinerário espiritual do cristão, à Segunda Morada. A Primeira Morada é aquela em que a pessoa simplesmente está em estado de graça; por isso, todos os cristãos que comungam encontram-se, ao menos, nessa primeira etapa. Mas, quando alguém possui uma vida de oração íntima, pessoal e constante com Deus, encontra-se na Segunda Morada.
Entretanto, essa Segunda Morada precisa desabrochar em um apostolado capaz de purificar as paixões desordenadas que existem em nós. É aqui, então, que aparece a importância de Marta: ela é aquela que serve, que se entrega e que age.
Nesse caso, a ordem dos fatores altera, sim, o produto. Ou seja, se começamos simplesmente sendo Marta, caímos no pelagianismo, pensando que, por nossa própria força de vontade e capacidade, realizaremos obras de justiça e alcançaremos a santidade. Contudo, se não nos sentarmos à soleira da porta de Deus como mendigos da sua graça, não conseguiremos fazer nada.
Nosso Senhor disse com toda clareza: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5). E esse “nada” é o nada mais radical e absoluto que existe. Não somos capazes de fazer nada verdadeiramente bom sem a ação divina.
Quando começamos a ter, pois, uma vida de oração, a meditar a Palavra de Deus e a alimentar-nos da graça, a nossa vida se transforma. E, ao percebermos o amor de Cristo, Aquele que se entregou por nós na Cruz, compreendemos que precisamos corresponder a esse amor.
Por meio do apostolado, da doação e da entrega, crescemos espiritualmente como Marta. Desse modo, avançando na fé e na santidade, poderemos tornar-nos como os grandes santos: perfeitos contemplativos e perfeitos ativos. É raro que isso aconteça, porque o caminho é longo e a estrada é realmente acidentada, mas é isso que Deus deseja de nós: um amor tão sublime que possamos dizer como São Paulo: “Vivo, mas não eu. É Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).
Pela graça de Deus, todos nós seremos, um dia, não somente como Maria contemplativa e Marta ativa, mas também como Lázaro ressuscitado para a vida nova que Cristo deseja nos dar: o amor divino que brota no coração humano. Por isso, peçamos a intercessão destes três irmãos para que, alimentados pela oração e transformados pela caridade, correspondamos ao amor de Deus e vivamos inteiramente para Jesus.




