Hoje, revivemos e celebramos o fato de que a redenção de Cristo significa que a luz de Deus retornou e está presente em nossas vidas, que não precisamos mais andar nas trevas nem descobrir outras luzes e caminhos, porque o céu se revelou de uma vez por todas em Cristo, mostrando-nos para onde vamos e como chegar lá. A primeira leitura nos lembrou disso, o que podemos resumir com as palavras de São João da Cruz: “O olhar de Deus é amor” (CB 32,3). Ou seja, o que Deus olha, Ele cura, magnifica, transforma e diviniza. Esse olhar amoroso de Deus se concretiza, e como, em Jesus Cristo, Seu Filho. Quando Ele nos olha, embora nos veja como somos, em nossa realidade concreta, sobretudo nos contempla como realmente somos, como criaturas de Deus, Seus filhos, e está pronto para nos perdoar, curar e transformar, tudo o que for necessário. Ouvimos que foi isso que aconteceu com o cego de nascença. Jesus nos revela que o que importa não é a origem do seu pecado (seja de seus pais ou de suas próprias ações), mas que Deus manifestará sua glória nele, mostrando-nos o que veio fazer por todos nós. Nesse sentido, o cego é um caso extremo: ele nunca conheceu a luz e, portanto, nada do que ela pode iluminar. Jesus age na raiz do problema e restaura, ou melhor, cria ou recria nele a visão que nunca teve. Mas sua recém-adquirida capacidade, em princípio, não lhe traz nenhum benefício. Pelo contrário: ele perde seu lugar na vida, seu direito à esmola e tem que enfrentar as inúmeras provações que sofreu e suas repercussões. Sua cura, sua “iluminação”, é vista como um ataque ao sistema de pensamento vigente, e todos acabam apontando o dedo para Jesus, como se ele fosse o causador. Os representantes do sistema estabelecido querem desacreditar o ocorrido alegando que Jesus é um pecador, que não observa o sábado e, portanto, não pode agir em nome de Deus. Sua cura seria, portanto, uma espécie de ato indiferente ou diabólico, não uma intervenção direta de Deus, o que fica evidente pelo fato de ele ter realizado um milagre que ninguém jamais havia feito antes. Por fim, como não conseguem convencer o homem que fora cego, expulsam-no da comunidade. E nesse momento, quando Jesus o encontra novamente, e ele, agora livre para ver a realidade e discernir a verdade, o reconhece como o Filho do Homem. Assim como no domingo anterior, o homem que fora cego não reconhece Jesus de imediato. Ele vê apenas outro homem à sua frente, mas agora é capaz de ver as coisas como realmente são, e o mais incrível aconteceu: que o Filho de Deus agora é também o Filho do Homem, e que está ali diante dele, e que ele pode reconhecê-lo e adorá-lo. É Deus quem o curou, quem interveio em sua vida para o bem, para lhe dar a luz e a capacidade de discernir a realidade como ela é agora. E é na realidade humana que todos compartilhamos que Deus agora está presente na pessoa de seu Filho feito homem, feito nosso Salvador, que se curva diante de cada um de nós.Ele nos acolhe, nos perdoa se necessário, nos cura e, ainda assim, abre a possibilidade de recebê-lo como Salvador e Messias. Jesus também nos adverte, depois de nos dar a luz, que o pior não é não ver, mas não querer ver, fechar-nos à luz para defender um sistema de pensamento, fé ou vida que já não se sustenta na realidade.





